sábado, 26 de maio de 2012

Dercy e a Psicanálise





Faz um tempinho que desejo escrever sobre a esfinge Dercy. Resistência de ainda não ter conseguido ler a publicação de Maria Adelaide Amaral, “Dercy de cabo a rabo”. Apenas deliciosos trechos.

Depois, veio a minissérie global “Dercy de Verdade”, inteiramente baseada na obra biográfica, inclusive sob a tutela da mesma Maria Adelaide Amaral que é também uma boa autora de folhetins. Foi um deleite, perdi alguns capítulos e aguardo a venda em DVD, pronto.








Indispensável dizer é que tivemos, os que assistiram, a oportunidade de migrar o pensamento daquilo que já supunhamos saber sobre a artista Dercy, principalmente a dos últimos anos de vida, que ainda com limitações, queria não apenas ganhar salário gratuitamente sem trabalhar (para a empresa que ajudou a fundar). 

Dercy, que nasceu Dolores, dores em espanhol, sempre teve muito a dizer e sempre falou honestíssima, mesmo que por meio dos chistes e ‘palavrões’. Atos de fala muito bem aproveitados pela psicanálise para a tradução do inconsciente. Não só de ‘palavrões’ vivia Dercy e isto deve ser séria e respeitosamente analisado. O que se pode mensurar é que dentro ou fora do set analítico, a centenária Dercy Gonçalves, quase da idade da psicanálise, viveu tantos eventos que se fossemos relacionar aqui levaríamos um texto inteiro, o que não é a proposta. Também não me proponho beatificá-la, longe disto, Deus a livre. Fiquemos preferencialmente com a imagem de uma Dercy barroca, luz e sombra, plural, tantas:

“Quem é Dercy Gonçalves, quem sou eu? Sei lá. Não sei quem sou. Fui tanta coisa. Eu fui tudo [...] Até de vasto mundo me chamaram. E também disseram de mim: ‘essa mulher é uma santa, ‘essa mulher é uma ordinária’, ‘essa mulher é uma escrota’, ‘essa mulher é correta’, ‘essa mulher é...’. Tanta coisa que até esqueci. Menos o último refrão: ‘essa mulher é um exemplo de vida’.

Mas é exatamente após sua morte, como o é na maioria dos que também morrem, que se tem tal oportunidade analítica – mesmo que em devassada e devastadora busca de confidências, de coisas que possam denunciar o que não se sabia, de endossos de virtudes, enfim, de um tudo tão extremado. Sua alongada vida entre nós, sempre revelou coisas (im)pertinentemente interessantes. É o caso de sempre se pensar quando é que ela morreria. Dercy não morria e já se mitigavam suposições humorísticas. Veio-lhe a morte e ainda assim, coletivamente, se dispersaram mais rumores da chegada de Dercy no Céu, como frequentemente acontece nos textos dos cordéis.









Dercy foi uma justa prova de que a idade avançada não significa ser velho. Disto, ela retrucou uma vez dizendo:

Não sou velha. Velho é quem está caduco, velha são as pessoas que não têm mais o que fazer, que ficam encostadas, incomodando. Mas uma mulher como eu, que ainda trabalha, briga e raciocina...


Nada é gratuito ou por acaso. Até mesmo o ‘palavrão’ conclama, e como clama uma representação. Mas qual? Uma religação de afeto que neste ato dissolve a repressão infantil? Pode ser tanta coisa, sem receita prévia, a posição do analisando, a posição do analista, ambos diante da fala. Como é interessante notar que a linguagem, em seus mais variados usos, inclusive nas ‘palavras de baixo calão’ encontramos uma via de questionamento, a pulsação da pontuação que extraordinariamente escapa do inconsciente. Em quantos de nós habita uma Dercy? Quantas são latentes, quantas são manifestas?


Pior, quantos mereceriam uma ação analítica para tantas interrogações mal vividas, as do corpo e as da alma?

É o caso do encontro de Dercy com a Psicanálise. Poucos sabiam antes da exibição massificada da minissérie em 2012, que aquela personalidade havia feito análise durante anos e o melhor, que trazia grande êxito daquela experiência. Ora, uma coisa é saber que muitos do meio artístico fazem um discreto uso da psicanálise, mas outra coisa é presenciar um relato público e lúcido deste convívio. É o que fez Dercy ao ser entrevistada por Jô Soares muitos anos antes de morrer e que selecionado o trecho, compartilho aqui no blog:




Dedicar aproximadamente uma década de sua vida em análise, também não significa achar que sejam muitos os problemas do sujeito. Significa mesmo que é muito bom manter-se coerente no entendimento de seu movimento e de sua conduta, seja boa, seja má, livre de preconceitos.

Cada caso é um caso. Sobre Dercy Gonçalves é necessário investigar as causas, ela o fez certamente, e aprendeu a conviver com suas angústias. De seus palavrões e dela não tenhamos medo, repulsa, preconceito. Cada sujeito sempre estará sujeito...






Para saber mais:

Livro: Dercy de Cabo a Rabo
Autor: Amaral, Maria Adelaide
Editora: Globo Editora 
Categoria: Literatura Nacional / Biografias e Memórias
Número de Paginas : 320
Preço: De R$ 34,90 Por R$ 27,90
Saraiva.com.br



domingo, 13 de maio de 2012

[Especial] DIA DAS MÃES

A MÃE DO PAI

DA PSICANÁLISE



Eduque-o como quiser; de qualquer maneira há de educá-lo mal.
Sigmund Freud



            Freud e sua mãe Amalie Nathanson Freud.
Amalie Freud faleceu em setembro de 1930 aos 95 anos,
        poucos anos antes da morte de Freud em 1939.


 
Bem-aventurada dona Amalie que pariu o “Sig de ouro”, jeito maternal como ela tratava o menino Sigismund Schlomo Freud nascido em seis de maio de mil oitocentos e cinquenta e seis e que mais tarde se tornaria o imortal Sigmund Freud.
Não me proponho a escrever aqui sobre as consequências da relação maternal na casa dos Freud. Se houve excessos e se isso foi bom ou ruim, não é meu itinerário analítico, nem por considerar o que o próprio Freud vivenciou de sua análise pessoal. Mas quero sim, ressaltar que o ouro reluziu e cá estamos contemplando uma matéria nobre e que não perde o seu valor.
Correndo por fora, neste segundo domingo de maio, data consagrada às mães e que tem sua gênese lá na era primaveril da mitologia grega, me veio à cabeça um dos bordões dentre os tantos flutuantes nos diálogos psicanalíticos contemporâneos. Dizer sempre ou quase sempre que a culpa é da mãe parece ser algo tão óbvio e tão cômodo que dito assim, de relance, açoita a índole intelectual dos inocentes. Lembro-me até de propaganda de um Banco (que não citarei) em cuja cena, um suposto analisando procura o Dr. Sigmund e ao abrir-lhe a porta, o próprio, encarnado e de pé da soleira da porta diz secamente: “a culpa é da sua mãe”. Após risos de uma plateia imaginária de fundo (talvez os que concordavam), um narrador dizia da importância e da beleza das coisas serem assim, “diretas ao ponto”. Este texto evoca ainda assunto pra outra postagem sobre os desprazeres da vida veloz na geração fast food. Mas retomemos ao complexo de culpa instaurado nas representações maternas.

Que culpa é essa? Espécie de herança maldita que passa de mães para filhas que viram mães, que têm suas filhas e filhas e mães que ao longo dos ciclos se renova? De onde vem esta sentença, condenação sem chance de defesa.
A “brincadeira” advém de engessadas “leituras” do conteúdo freudiano, pós-freudiano e é preciso muita subjetividade para refazer o percurso. De início, é extremamente necessário desconstruir a ideia de negatividade em torno do que é maternal. Por pior que tenha sido a relação afetiva ou mesmo a falta da relação, a psicanálise aplicada pelo profissional de boa fé jamais dirá a um analisando que a raiz de seu sofrimento é fruto desse fruto. Muito pelo contrário, a psicanálise acolhe, por meio de interpretações e análises, cuidando de reatualizar as versões da história a fim de que se possa ressignificar o essencial dela, dissolvendo seus conteúdos fantasmáticos e oriundos de anos de sofrimento reprimido inconsciente. Muito, mas muito erroneamente se pensa e se afirma na mídia, na clínica, “ou numa casinha de sapê” que a psicanálise põe a culpa de tudo nas mamães do mundo, quando em verdade o que ocorre – e o que a psicanálise faz de melhor - é exatamente não julgar e muito menos não culpar ninguém de algo ou de outro alguém.

O problema é quando um pensamento negativo como este, invade a expectativa de uma mãe, dos pais, caucionando a ideia de falência da estrutura familiar. Propositalmente transcrevi uma frase de Freud no início desta meditação para que pensemos na subjetividade dos tantos detalhes que constituem a dádiva da criação de um filho e não na coisa toda, por inteiro, indigesta. É reconfortante refletir que por mais que se pense e que se faça o melhor, este dito melhor pode não ser ou não ter sido o essencial.

Hoje assistimos a tantos pais e mães que “pagam” suas ausências físicas com incontáveis presentes de uma lista igualmente interminável simplesmente porque não tem fim, não se comp(a)ra aquilo que tentam eles na boa intenção de substituir o amor/alimento tão necessário nos primeiros e decisivos anos desse mirabolante psiquismo em constante estruturação e em que se poderá analisar futuramente, os pontos de desequilíbrio no desenvolvimento que se sobressaem por exemplo, através de uma fixação ou regressão. Ora, e mesmo com amor, o mundo lá fora irá provar como, na maioria dos casos, é preciso se lançar na áspera teia da vida.

A construção de um sujeito é algo extremamente complexo e não depende única e exclusivamente da mãe. Daí uma valiosa contribuição de Lacan sobre a figura do Pai na psicanálise, levando ainda em grande conta os contextos específicos da presença de outros em redor da criança em formação, outro exemplo pertinente.

Ao final, é bem o que em outra citação Freud ilustrou:


“Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons”
 



Dedicando esta postagem à minha mãe,
não apenas pelo dia de hoje,
mas por todos os dias do doce mistério da vida.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

FILME: A pele que habito


no divã de Almodóvar















Consegui, enfim, assistir ao filme de Pedro Almodóvar. Havia optado por outro filme quando de sua estréia há alguns meses. Entre os que amaram e os que odiaram, me coloco na fala dos que amaram. O filme conserva perfeitamente a assinatura do seu mestre Almodóvar e traz consigo inúmeras referências psicanalíticas.

A metáfora da pele é o pano de fundo essencial aos debates sobre nossa sexualidade, a que vestimos, a que habitamos, ou que alguns sujeitos humanos são forçados a habitar. O filme aborda em sua trama com grande particularidade essa questão da constituição da identidade. Pode parecer uma grande fábula, mas a metamorfose ali encerra uma grande discussão psíquica. Oscilando entre o fetiche, a castração e a peversão propriamente dita, refletimos pasmados sobre as peles em que habitamos ou nos aprisionamos.

A seguir, transponho um texto analítico do psicanalista Calligaris sobre o filme. Boa leitura.


A pele que habito (e a dos outros)

Por Contardo Calligaris

Há homens que sonham em ser transformados ("contra sua vontade") em mulheres promíscuas e submissas

Nesta altura, considero conhecida a trama do último Almodóvar, "A Pele que Habito": um cirurgião, o doutor Ledgard, sequestra um jovem (Vicente) durante anos e o transforma numa mulher (Vera).
Na saída do cinema, alguém comenta: "Se acontecesse comigo, eu ficaria namorando o médico. Fazer o quê? Pênis, eu já não teria mais. E não estaria a fim de fugir. Voltar para minha vida de antes e contar que me tornei mulher para minha mãe e para meus amigos, já pensou?".
Infelizmente, na situação da vítima de Ledgard, ninguém conseguiria fazer prova de tamanho pragmatismo, por uma razão simples: a sensação íntima e profunda de ser homem ou mulher (a identidade de gênero) não é coisa que possa ser mudada.
É possível, isso sim (e acontece no caso dos transexuais), "retificar" o corpo, caso ele não coincida com a identidade de gênero de alguém.
Se você sempre se sentiu homem num corpo de mulher ou mulher num corpo de homem, se você tem a trágica impressão de estar no corpo errado, pois bem, nesse caso, à força de hormônios, operações cirúrgicas e orientações terapêuticas, você talvez possa modificar seu corpo de maneira que ele concorde com seu sentimento de identidade.
Mas não há tratamentos que, ao transformar seu corpo, possam levar você a mudar seu sentimento profundo de ser homem ou mulher.
Conclusão, se um homem fosse transformado em mulher à força, ele não se resignaria (pragmaticamente), mas passaria a vida querendo que seu corpo fosse retificado para ele voltar a ser o homem que ele nunca deixou de ser.
Em 24 de fevereiro de 2000, nesta coluna ("A terapia da faca e do superbonder"), contei a história de David Reimer, cujo pênis foi decepado acidentalmente na circuncisão, em 1966.

Por sugestão do psicólogo John Money, Reimer foi castrado e criado como menina, com a ideia de que é melhor ser uma menina fabricada (na faca, com hormônios, roupas e brincadeiras adequadas) do que um menino com uma prótese peniana.
John Money escondeu o desespero de Reimer durante infância e adolescência. Reimer, ao descobrir o engodo do qual tinha sido vítima, parou a palhaçada e voltou a ser homem. Atualizando: em 2004, Reimer se suicidou.
Por qual loucura Money imaginou que, ao transformar o corpo de um menino, ele poderia mudar sua identidade e fazer dele uma mulher?
A resposta está na onipotência das ciências humanas nos anos 60, mas também numa fantasia erótica masculina, que talvez Money compartilhasse e que paira tanto sobre "A Pele que Habito" quanto sobre o livro (imperdível) que inspira o filme: "Tarântula", de Thierry Jonquet (Record).
Há sites (sixpacksite.com; tgcomics.com; fictionmania.tv) inteiramente dedicados a ficções e quadrinhos que elaboram fantasias de feminização forçada. A clientela desses sites é de homens heterossexuais, que sonham em ser transformados ("contra sua vontade") em mulheres promíscuas e submissas. Dica: os machos que se gabam por levar as mulheres à loucura podem estar com vontade de sentir neles mesmos o efeito de seus próprios (supostos) talentos.
Mais perto do cotidiano, "A Pele que Habito" é também apenas mais uma parábola do amor, pois é banal que o amor nos leve a querer transformar parceiros e parceiras de forma que eles correspondam a nossas expectativas.
O projeto de moldar o outro transforma qualquer convívio numa violência. Mas essa violência não impede nada: no clássico "Post-traumatic Therapy and Victims of Violence" (terapia pós-traumática e vítimas da violência, Routledge, 1988), Frank Ochberg enumerava, entre os sintomas habituais das vítimas, tanto um ódio ressentido e doentio quanto sentimentos positivos -incluindo amor romântico, sujeição e, paradoxalmente, gratidão.
"A Pele que Habito" poderia ser, em suma, a versão trágica e realista de "My Fair Lady". No musical, Eliza Doolittle acaba amando mais que odiando o prof. Higgins, que a transformou numa "lady". No filme de Almodóvar, talvez Vera odeie Ledgard mais do que o ama. Mas o que importa é que os sentimentos da vítima são sempre ambivalentes.
É essa a chave para entender as mil histórias de vítimas que poderiam ou deveriam ter fugido, como a de Natascha Kampusch, abusada por "3096 Dias" (Verus ed.), ou como a da menina que foi escrava sexual de Gaddafi durante cinco anos (Folha.com de 15/11; http://migre.me/6g0HI).

Folha de S.Paulo - Ilustrada - A pele que habito (e a dos outros) - 01/12/2011

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Maria Bethânia

"Escrever é purificador (...)
A brincadeira de ‘Carta de Amor’ é para mim,
para me livrar de demônios, angústias"

Maria Bethânia







Este mês de abril Bethânia lançou o álbum "Oásis de Bethânia" o de número 50 e durante uma coletiva aos jornalista no Rio de Janeiro, conversou sobre o novo projeto que tem inspirações sertanejas e poéticas, como sempre e disse lucidamente aos presentes:

"Sertão é onde não tem nada. Não tem água, falta tudo, a vida é seca.
É o limite que Deus colocou. Para mim isso é uma fonte,
uma nascente muito pura, me bota do tamanho que sou"

capa do cd

Ainda não adquiri o meu mas andei lendo e ouvindo do poema-canção "Carta de Amor" que ao que consta, pela primeira vez nos 47 anos de carreira, se apresenta como de sua autoria pessoal. Isto é muito significativo e revela uma maturidade "divanesca" (diva + divã).  Nos próximos dias, também editarei esta postagem para mencioná-lo integralmente. Mas de antemão e para quem ainda não conheceu, posso mencionar que é memorial. 


Um passeio simbólico por tudo quanto ela andou fazendo durante todos esses anos em seu divino ofício, das crenças, das heranças indígenas, africanas, portuguesas: brasileiras! De quando conheceu o Menino Jesus com o mestre Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, das contemplações à mãe natureza, das imensidões do universo à pequenez grão, farelo do sentimento humano. Mantra, desabafo, sussurro, muxoxo, praguejo poético de constranger e arrebatar, eis o texto:


Carta de Amor  Maria Bethânia

Não mexe comigo que eu não ando só
eu não ando só, que eu não ando só
não mexe não


Eu tenho Zumbi, Besouro, o chefe dos Tupis
sou Tupinambá, tenho Erês, caboclo boiadeiro
mãos de cura, Morubichabas, Cocares, Arco-íris
Zarabatanas, Curarês, Flechas e Altares.
A velocidade da luz no escuro da mata escura
o breu o silêncio a espera. Eu tenho Jesus,
Maria e José, todos os Pajés em minha companhia
o menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos
(o poeta me contou).

Não mexe comigo que eu não ando só
eu não ando só, que eu não ando só
não mexe não


Não misturo , não me dobro a rainha do mar
anda de mãos dadas comigo, me ensina o baile
das ondas e canta, canta, canta pra mim, é do
ouro de Oxum que é feita a armadura guarda o
meu corpo, garante meu sangue, minha garganta
o veneno do mal não acha passagem e em meu
coração Maria ascende sua luz, e me aponta o caminho.
Me sumo no vento, cavalgo no raio de Iansã,
giro o mundo, viro, reviro tô no recôncavo
tô em face, vôo entre as estrelas, brinco de
ser uma traço o cruzeiro do sul, com a tocha
da fogueira de João menino, rezo com as três
Marias, vou além me recolho no esplendor das
nebulosas descanso nos vales, montanhas, durmo
na forja de algum, mergulho no calor da lava
dos vulcões, corpo vivo de Xangô

Não ando no Breu nem ando na treva
Não ando no breu nem ando na treva
é por onde eu vou o Santo me leva
é por onde eu vou o Santo me leva


Medo não me alcança, no deserto me acho, faço
cobra morder o rabo, escorpião vira pirilampo
meus pés recebem bálsamos, unguento suave das
mãos de Maria, irmã de Marta e Lázaro,
no Oásis de Bethânia.
Pensou que eu ando só, atente ao tempo num
comece nem termine, é nunca é sempre, é tempo
de reparar na balança de nobre cobre que o rei
equilibra, fulmina o injusto, deixa nua a justiça

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão
e pra onde você for não leva o meu nome não
e pra onde você for não leva o meu nome não
 

Onde vai valente? você secou seus olhos insones
secaram, não vêem brotar a relva que cresce livre
e verde, longe da tua cegueira. Seus ouvidos se
fecharam à qualquer musica, qualquer som, nem o
bem nem o mal, pensam em ti, ninguém te escolhe
você pisa na terra mas não sente apenas pisa,
apenas vaga sobre o planeta, já nem ouve as
teclas do teu piano, você está tão mirrado que
nem o diabo te ambiciona, não tem alma você é
o oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo.

O que é teu já tá guardado
não sou eu que vou lhe dar,
não sou eu que vou lhe dar,
não sou eu que vou lhe dar.


Eu posso engolir você só pra cuspir depois,
minha forma é matéria que você não alcança
desde o leite do peito de minha mãe, até o sem
fim dos versos, versos, versos, que brota do
poeta em toda poesia sob a luz da lua que deita
na palma da inspiração de Caymmi, se choro quando
choro e minha lágrima cai é pra regar o capim que
alimenta a visa, chorando eu refaço as nascentes
que você secou.
Se desejo o meu desejo faz subir marés de sal e
sortilégio, vivo de cara pra o vento na chuva e
quero me molhar. O terço de Fátima e o cordão de
Gandhi, cruzam o meu peito.
Sou como a haste fina que qualquer brisa verga
mas, nenhuma espada corta

Não mexe comigo que eu não ando só
eu não ando só, que eu não ando só
não mexe comigo


imagem google

Bethânia é essa artista completíssima que provoca lampejos de reflexão na sondagem do humano mais barroco, entre nosso breu e nossa luz. Revela-nos, à maneira dos grandes e imortais, uma parte valiosa do subjetivismo do indomável inconsciente.

Com este trabalho que ela chama de Carta de Amor, contemplamos exatamente aquilo que é dito pelo que não é dito, pelo que escapa no "oco, do oco, do sem fim do mundo" do Outro.

E também naquilo que vem passado a ferro no processo de constituição do sujeito, marcas impressas, insígneas maternais, selos profundamente autênticos do seu Eu:
"minha forma é matéria que você não alcança
desde o leite do peito de minha mãe,
até o sem fim dos versos, versos, versos"

Refazendo caminhos, garimpando canções do passado, procedendo uma verdadeira arquelogia da palavra e do verso, Bethania garante à música brasileira uma permanente purificação nos cenários mais desfavorávies à história e a memória da cultura popular, "chorando eu refaço as nascentes que você secou", nessa mistura genuinamente brasileira, fruto do branco, do índio e do negro, de suas heranças e do nunca estar à sós, mesmo quando se pense exatamente o contrário:

"Pensou que eu ando só, atente ao tempo num
comece nem termine, é nunca é sempre, é tempo"
(...)

"Não mexe comigo que eu não ando só"
 




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Filme INQUIETOS

Existe um pássaro que acha que morre sempre que o sol se põe.
De manhã, ao acordar, ele fica chocado de ainda estar vivo, então, canta uma canção linda.
Eu canto toda manhã desde que te conheci.
Annabel para Enoch

O que doze pessoas procuram numa sala de cinema em plena segunda-feira de carnaval? O que elas procuram eu não saberei dizer em uma única sessão, mas o que elas procuraram e encontraram foi o título sugestivo, palavra-chave: Inquietos, a recente produção de Gus Van Sant.
Na história, somos apresentados aos jovens Enoch e Annabel.
Ele carrega em si o trauma da perda dos pais em um acidente de carro em que segundo conta, permaneceu três meses em coma e viu o que a morte reserva do lado de lá. Mora com uma tia que lhe amparou desde então e tem um amigo fantasma, imaginário ou não porque o filme preserva a sutileza do mistério.
Ela, uma garota estudiosa e fã de Darwin, das leis biológicas, de aves e de insetos. Com câncer, ela percorrerá seus últimos meses de vida entre sensações, percepções e vivências extraordinárias.

Em comum, ambos freqüentam aleatoriamente velórios e memoriais de pessoas desconhecida até o dia em que se encontram e se permitem em trocas reais e simbólicas de afetos.

Quase sonho. É onírico quando o inconsciente parece se reproduzir inteiramente do lado de cá, pela via da amizade fantasma de Enoch com o kamikaze, pelas fantasias da festa de halloween, pelas cores, texturas, ângulos e dispersões.
 
Traz a perfeita dosagem entre o humor leve e o drama tocante, a ingenuidade e ao mesmo tempo a ousadia do adolescente enlutado pela criança que foi um dia, do medo de existir e de viver mais pungente que o medo da morte e do morrer, e tantas outras belas alternâncias das instâncias do sentir humano, tão bem justificadas no título do filme: INQUIETOS
É metalingüístico quando Annabel ensaia sua própria cena de morte em riqueza de falas e de detalhes. É poético na abertura musical com “two of us” dos Beatles, no desfecho com a linda The fairest of the seasons” e tocante no soar das melodias instrumentais diluídas durante o filme.
É “tanático” todo ele quando aborda de maneira cativante os assuntos inerentes às perdas, à morte, ao luto e de como, na grande maioria das vezes, nos abstemos de vivenciar a maior e mais lúcida de todas as nossas certezas e do valor que devemos dar a vida enquanto ela se fizer biologicamente presente. Da vida e da morte, tão reconhecíveis faces de uma mesma moeda.

Você pode fazer muitas coisas em três meses
Enoch para Annabel

Não sei bem a impressão dos demais expectadores do filme naquela segunda-feira de carnaval. O silêncio na descida dos degraus foi unânime e perturbador. Por um instante, pairou reconhecido em cada um, na penumbra daquela grande sala-caixa-útero de concreto, carpete e frio ar-condicionado o desejo perene do eterno retorno para "casa" como nos versos da beatle canção:

We're on our way home
We're going home
Nós estamos em nosso caminho para casa
Nós estamos indo para casa


Para ouvir enquanto lê:

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

PRÓSPERO ANO NOVO



Imagem Google













PRECE DO PSICANALISTA

Ó Deus! Que minhas epifanias continuem se revelando e me fortalecendo para que eu fique mais sábio a cada novo tempo e principalmente, que a humildade me silencie sempre que necessário ante ao grito das paixões do Outro. E àqueles que especialmente me procurem – e me encontrem – que possam eles cumprir a travessia de si mesmos e eu, continuar a minha.
Assim seja.

por Lorscheider Peixoto
psicanalista clínico




UM AMOROSO ANO NOVO

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

I. Série sabedoria popular: “formiga quando quer se perder cria asas”

Naquele tempo era natural que se fizesse uso da sabedoria popular em orientações educacionais; hoje até diria: para fins terapêuticos em detrimento do teor pedagógico limitado. Naturalíssimo era a gente daquela geração ouvir entre uma conversa, conselho, advertência ou mesmo surra uma citação tão valiosa como se tivesse sido extraída de livros acadêmicos. Possivelmente uam maneira terna de substituir a ausência também natural de uma formação de ensino.

O fato é que desde tenra idade ouvi uma ou outra frase de efeito daquele adágio popular. Frase feita que misteriosamente encaixava-se no expediente certo, quantas fossem as situações e os tempos. E lá explodia a mesmíssima frase que nunca perdia seu valor, impressão de eternidade. Tenho uma coleção mental delas - as mais recorrentes e, sobretudo, as que são mais inerentes ao meu processo pessoal de análise... 

Hoje desejo comentar uma que, motivada pelo resgate de cena, é repleta de conteúdo psicanalítico. Nessa época do ano podemos presenciar na coincidência das chuvas (aqui chamadas de chuvas dos cajus e das mangas) o balé aéreo do acasalamento das formigas. Pela revelação da metamorfose elas “criam asas” e no rito mais importante de suas vidas, Elas, as rainhas em pleno vôo são fecundadas pelos machos mais rápidos para em seguida descerem a terra, como anjos caídos, quando arrancarão suas asas irão formar novos formigueiros. Soube que os machos morrem em seguida, pois seus órgãos reprodutores ficam presos às fêmeas durante a “dança”. Aliás, isso é constante no reino dos insetos...

E hoje, ao chegar pela calçada da Fundação em que dou expediente diário, uma revoada de formigas “exibicionistas” exploravam sua libido como se fosse a primeira e última vez, e literalmente o era. De imediato veio a imagem de alguém que suponho ter sido minha mãe dizendo não sei em qual ocasião e quem a bendita frase: “formiga quando quer se perder cria asas”.

Alguém aí já passou pelo questionamento interior de quando algumas cenas infnatis são bobamente inesquecíveis especialmente para nós? Curioso como alguns conteúdos nossos ficam registrados e mesmo embaçados em amnésia infantil se mostram salientes e se fazem lembrar. E, se se fazem lembrar é porque estão relacionados às nossas faltas, ao nosso incessante desejo. Pois bem, tenho uma coleção de ditos populares que tentarei eventualmente pela psicanálise abordar.

Hoje medito sobre o simbólico da asa libertadora do animal que preso ao chão, um dia de sua existência terrena se transformará e terá a possbilidade de voar e por um altíssimo preço cumprir sua saga. Reflito principalmente sobre o contexto sexual presente ali no ato, até mesmo transferido a questão ao sexo católico de função unicamente procriadora e polêmica.

No Brasil interiorano ainda é muito freqüente a atribuição pecaminosa do verbo “perder-se”. A entrega do corpo a alguém ou a alguns que seja não pela via socialmente aceita abre um sério precedente. Indigno, maculado, sujo. E sendo mulher então? Aliás, sempre pesa sobre elas a bigorna das convenções quando lhes são impostas as mesmíssimas condições das antepassadas. O "vôo" tem que ser realmente nupcial como a biologia tratou de nomear para o caso das formigas e tanajuras? Pensemos na semelhança: elas que arrancam as asas para procriar e se limitarem sexualmente. Absurdo pensar que ainda hoje existam tais situações onde a mulher não seja mais sexualmente ativa após assumirem a condição maternal e a posição de rainhas... do lar. Títulos honoríficos e anulação do prazer. Tantos casais apáticos que não enxergam mais a vitalidade da pulsão sexual e viram, por meio de uma estranha metamorfose, sócios de um empreendimento puramente comercial chamado família com suas preocupações exclusivamente materialistas e o medo constante da falência.

"Formiga quando quer se perder cria asas" traz a possibilidade do vôo, de reparar as coisas de cima, de tocar o ar quando ele é mais ar, mais céu, mais amplo, coincidentemente chuvoso, em meio a neblina, a incerteza do futuro. É a grande massa de asas ofuscando e revelando descaradamente o que muitas vezes é reprimido uma vida inteira. Mas, sem zumbido como as vizinhas abelhas. São formigas e exatamente em vôo silencioso de uma ousadia sem precedentes e que jamais se repita novamente. É estonteante notar e pressentir o gozo que as minúsculas mas em grande volume tencionam nos revelar, nem que para isso uma mais histérica queira nos "falar ao pé do ouvido" do reprimido bem de perto, voando e penetrando em nosso ouvido. Medo de formiga de asas entrar no ouvido e quando crianças nossas mães nos davam algodões para vedá-los. E ser capaz hoje o adulto de ouvir o que antes era prematuro, ser ele capaz de introjetar essa idéia de permissão para voar ao menos uma vez na vida. Como se achar sem nunca se perder? É o que Clarice Lispector sintetiza:


E no arremate eu convido Freud para nos explicar:

"Se quiseres poder suportar a vida,
fica pronto para aceitar a morte."
Sigmund Freud
possivelmente observando o vôo nupcial das formigas
(risos)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

REDIVÃ... onde sempre é útero

Você certamente conhece ou já ouviu falar de alguém que não tenha sido bem sucedido na cama. Calma, estamos falando do sentido literal da palavra pois para um bom punhado de gente, ter uma cama não significa conforto, descanso, uma boa noite de sono. São pessoas que não gostam da dita cuja e desde que se entendem por gente têm consigo o espírito do ancestral indígena para o uso da rede. O velho utensílio  apadrinhado e registrado por Pero Vaz de Caminha por se assemelhar a uma rede de pescar, se confunde com a própria história do Brasil, como nos relata Câmara Cascudo1.

Da sua metamorfose ao longo dos séculos, das varandas e bordados herança européia, da mudança do tecido, do uso de materiais diferenciados e hoje com ares de sofisticação ela até ostenta não sendo vista apenas como reflexo de pobreza, representando a ausência de uma cama.

Costumes, culturas, influências, necessidades à parte e muitas outras explicações conscientes podem atender ao questionamento do porquê da rede de dormir, mas o que estaria por trás deste discurso exatamente naquilo que não é dito porque (já) se revela psicanaliticamente?

Esta epifania me chegou pelo balanço da minha rede (de descanso) alaranjada brilhante. Cuidei logo e sobrevoei terrenos conhecidos a fim de que pudesse confirmar uma teoria e o pouco que encontrei foram “trocadilhos trocados” entre colegas que também estudam a psicanálise e de quando em certa ocasião desconstruímos o modelo importado de set analítico e em lugar do divã, fizemos uma releitura tropical e nordestina de uma sessão em que o analisando falasse de uma rede.

Esta seria rebatizada e para este fim, seria chamada apartir de então de “redivã”

UM CASO

Recorrendo a doutrina freudiana do inconsciente e do desejo, sim porque psicanálise é antes de tudo inconsciente e desejo. Revelei-me sabedor de uma belíssima perspectiva e para manter o já habitual rito do anonimato dos casos clínicos, traremos à baila o nome e o exemplo da família do Sr. Fred. Ele é o caçula com mais duas irmãs. Ressaltamos a singularidade aí contida por ter sido o último rebento daquela união e sendo homem ao que nos parece costumaz, uma certa alegria proclamada ante a chegada do varão (grosseiramente fálico). Conta-nos sua genitora que um fato teria sido preponderante na configuração da personalidade daquele menino que não quis nascer em sua hora, em seu tempo. Puxado, arrancado, tirado à ferro, como ela mesma sempre fez questão de dizer, ou melhor, justificar em determinadas ocasiões teve-o a muito custo num tortuoso parto fórceps.

Minha intervenção para a mirada psicanalítica se avulta exatamente daqui em diante. A tempestuosa inscrição do parto e sua forçada entrada no mundo e a interpretação de tantos eventos que vieram diretamente submetidos ao evento original lá no parto, partido à força nos confirma que hoje, tanto tempo depois, o Sr. Fred mesmo casado e velho, cumpre o mesmíssimo ritual de há décadas: como que desejando seguir o caminho inconsciente que lhe conduz ao sagrado útero materno. O ato, o diário enrolar e desenrolar do pano, o desfraldar da rede, o armar, o fixar da rede, e suspenso, isolado, encasulado que ele vai aquietar o corpo no sono dos justos e sonhar...
        
Hoje, vem da medicina a recente descoberta e aplicação do uso de minirredes junto às incubadoras onde, segundo eles, a redinha (as)segura ao bebê prematuro o conforto similar ao do útero materno viabilizando não apenas o bem estar dos primeiros dias de nascido mas garantindo um desenvolvimento harmonioso entre corpo e mente.

Comprovou-se que na maioria dos casos há um significativo ganho de peso/dia dos bebês assistidos em rede.  

Tudo isso me fez pensar que os povos aborígenes tinham razão. A velha razão de ser das coisas. A própria metáfora de estar suspenso a poucos centímetros do chão e mais que isto, numa garantida sensação de acolhimento e leveza proporcionado pelo “abraço” e “guarda” da rede, ressignificam seu aspecto extremamente maternal.

Vale comentar que já se encontra no mercado mobiliário um modelo de cama para aqueles que não abrem mão do espaço de mais de metro – e isto também tem sua veia psicanalítica – chamada de cama de balanço. Isto mesmo! Pesquisando, disponibilizo aqui para aqueles que ainda não conhecem ou por ventura desejem aventurar-se no curioso mundo da novidade, nem tão “nova  idade” assim... inspiração advinda também da infância perdida, do ninar na cadeirinha de balanço, do berço de balanço, do balanço do parquinho, é a tal felicidade:

O útero materno - isto foi redundância? - inconscientemente para reafirmar que - a primeira morada nossa está sempre a se fazer presente porque já é permanente em nós independendemente das sendas percorridas ou das sagas vividas tal ensejo simplesmente é, para o bem ou para o mal de cada um.









E como a psicanálise torna bela a existência humana.



Referências:
1CÂMARA CASCUDO, Luís da. Rede de dormir – uma pesquisa etnográfica. Rio de Janeiro, FUNARTE/INF, Achiamé; Natal, UFRN, 1983.